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Quando a dor transformada em arte

Rubem Alves tem um livro intitulado "Ostra feliz no produz prola". De maneira delicada e profunda, mostra que a dor, no necessariamente aquela mais doda, pode produzir autoconhecimento, tolerncia ao outro, generosidade e gratido pela vida.

A experincia da dor em cada um produz efeitos diferentes. Na psicologia, chamamos de resilincia a capacidade de uma pessoa se reconstruir aps acontecimentos muito difceis.

Convivendo com crianas e adolescentes moradoras do bairro do Coque, considerado um dos mais pobres e violentos de Recife, no Projeto Orquestra Criana Cidad, aprendo todo o tempo sobre a dor e a capacidade de cada uma daquelas crianas "tirar leite de pedra".

Sou fascinada pelos caminhos que muitos criam para driblar a violncia intrafamiliar, os insistentes convites para fazer parte da marginalidade, os abandonos maternos e paternos e a exigncia dos pais para que, a partir dos 14 anos, trabalhem mesmo que seja vendendo qualquer coisa na rua, mas trazendo dinheiro.

Nessas famlias, o trabalho comea cedo. A educao escolar e o trabalho quase sempre andam em sentidos opostos. A subsistncia impe urgncia. A educao requer tempo. Pais aguardam impacientes que seus filhos produzam receita e, com isso, possam diminuir o fardo do trabalho duro para sustent-los. Ambos, pais e filhos, tm suas razes. Os primeiros nunca conheceram a vida sem a dureza e a dor da falta de oportunidades.

Os filhos, uma nova gerao, de posse de tantas informaes advindas do fcil acesso tecnologia, conhecem outros mundos e vislumbram uma vida melhor. Gostariam de chegar ao nvel superior na sua formao; muitos nem ascendem ao ensino mdio. Uma equao bem difcil de resolver, quando falamos da educao e a necessidade de trabalhar muito cedo.

Entretanto, voltando ao tema da dor, alguns conseguem torn-la mote para a caminhada. Estes, com certeza, contam com o apoio de pessoas que apontam possibilidades. Pessoas que acreditam que a verdadeira incluso ocorre pela via da produo e da proatividade em direo s mudanas.

Na vida, assim: quando estamos desamparados, desesperanosos e sem sada, "anjos", s vezes, surgem e acenam com caminhos e possibilidades. Cabe a cada um identificar e tomar, para si, a oportunidade. Sem dvida, para alcanar os objetivos, crianas e adolescentes precisam trabalhar muito para lidar com as dores numa perspectiva positiva. H chances, h uma luz l no fim do tnel.

Assim seguem carregando suas dores, mas cultivando a esperana. Tero sempre a tarefa de driblar as profecias, os desgnios que a pobreza lhes conferiu. Uma empreitada para poucos! Seus pais, seres, por vezes, considerados to sagrados, mas nem sempre altura das atribuies parentais, tero que ser enfrentados.

Um dia, Pedro, um menino de 15 anos, que toca violino, me conta a seguinte passagem:

- Eu estava estudando violino e mainha comeou a gritar mandando eu parar de tocar porque ela no aguentava mais aquele barulho. Ainda me disse que, com a msica, no vou longe, que preciso trabalhar e trazer dinheiro para casa. Ela me colocou no projeto quando eu tinha 10 anos, me incentivava a estudar msica... Agora, no quer mais! Ela no trabalha, mas quer que eu traga o dinheiro e coloque na mo dela, todo ms! No vai mais a qualquer apresentao.

Pedro se emociona, olha para seu violino como se estivesse se despedindo do que lhe trouxe a grande chance. A msica o diferencia do seu grupo, o protege de ser mais um morto ou preso pelas drogas ou roubos, afasta-o do dia a dia da violncia de uma comunidade onde a lei ditada por poucos que controlam, por exemplo, o trfico de drogas.

A msica, a arte, garante certa dignidade, a possibilidade do exerccio da cidadania. um cotidiano que exige criatividade e coragem para no submergir a fora da dor e da desesperana.

Empunhando um instrumento e habilmente tocando peas clssicas complexas, esses meninos e meninas nos fazem refletir sobre o que fazemos com nossas dores e com nosso bem estar, j que temos todas as possibilidades para fazer o melhor. Por que, muitas vezes, no fazemos?

Inmeras vezes deixamos de ousar, desafiar e construir porque, no fundo, temos medo das dores que a sada da zona de conforto pode nos trazer. No fao apologia dor, nem acho que esse o nico caminho para o autoconhecimento, de maneira alguma!

Mas, as insatisfaes, o medo permanente de que nossa segurana seja ameaada, a impunidade e o descaso das autoridades, queiramos ou no, movimentam sentimentos de impotncia, raiva e a conscincia de que, a qualquer momento, descendo do carro, por exemplo, podemos perder a nossa liberdade de ir e vir. Sentimos uma permanente sensao de injustia. Carregamos nossas dores! Como transformamos?

Pois bem, uma dor mal curada, pouco acalentada e compreendida pode fazer nascer, nesses adolescentes, a certeza de que precisam devolver ao mundo o sofrimento que lhes foi infringido. Podem, facilmente, usar a violncia como a nica e possvel forma de comunicar suas dores.

S h uma sada, ensin-los a pensar por meio da educao. Educao, do meu ponto de vista, toda e qualquer atitude que possamos ter na direo do conhecimento, do desenvolvimento de um pensar, da capacidade de observar o entorno e compreender que qualquer um de ns, ricos ou pobres, letrados ou no, somos parte de um grande sistema e alguma responsabilidade nos cabe.

A educao ensina o valor da liberdade de ser e deixar que o outro seja, nos d movimento, mas nos acrescenta responsabilidades. Por meio de aes educativas sem qualquer carter assistencialista ou paternalista, podemos devolver, s famlias, crianas e adolescentes, cidadania, dignidade e a crena na prpria fora a despeito das adversidades, que no so poucas!

Somos corresponsveis por tudo e todos que habitam esse planeta. Partindo dessa afirmao, todos ns podemos fazer alguma coisa para transformar, cada qual com o que pode. Sejamos aquelas ostras impacientes que, na cosquinha do gro de areia, se desorganizam e fazem nascer lindas e verdadeiras prolas.

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