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Perfil - Quando a msica fala mais alto

A msica tem uma linguagem nica e universal, mesmo sem entender de mtricas e ritmos, os ouvintes conseguem se emocionar e entender, de forma subjetiva, a mensagem repassada. Diferente do que muitos pensam, no precisa necessariamente ser criana para aprender a desenvolver uma aptido musical. O perfil da edio n 20 da Revista Criana Cidad traz um exemplo de compositor que comeou a se relacionar tardiamente com a msica e hoje um dos grandes nomes da nova gerao de compositores pernambucanos: Paulo Arruda.

Pernambucano do Recife, onde nasceu em 1977, sua primeira paixo foram os traos do desenho e as artes grficas em geral. Quando criana, adorava assistir os programas do artista plstico Daniel Azulay, onde ele ensinava a fazer decalques. Em um primeiro momento, quando se busca uma relao entre a msica e o desenho, difcil achar um ponto onde as duas artes se encontrem. Porm, na vida de Paulo Arruda, as duas expresses sempre andaram de mos dadas.

Os primeiros contatos com a msica vieram aos 11 anos de idade. Muitos adolescentes da sua idade ouviam rock e Paulo Arruda comeou a aprender a tocar violo. A partir do rock and roll, surgiram as curiosidades acerca da msica erudita e instrumental. Nessa poca, eu ouvia os grandes nomes como Beethoven, Bach e Mozart. Era muito difcil conseguir um disco para ouvir. Por isso, eu pegava emprestado com alguns amigos e quando podia, comprava, contou.

O contato do compositor com a msica nacional erudita foi sendo fortalecido com as edies dirias do programa Clssicos Especiais, veiculado pela Rdio Universitria do Recife. Paulo Arruda ouvia e gravava algumas fitas cassetes com os programas mais interessantes, para ouvir posteriormente sempre que quisesse. Nessas ocasies, foi apresentado obra de Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Conseguir estudar no conservatrio, naquela poca, era muito difcil. Mas, no auge dos seus 15 anos, o mpeto de adolescente sempre buscava uma forma de alcanar o que queria. Paulo Arruda tinha um amigo que estava estudando no Conservatrio Pernambucano de Msica, Dilton Monteiro, que ajudou Paulo a conhecer a instituio e mostrou-lhe alguns estudos, que ele repetia sozinho em casa. Mesmo sem ser oficialmente aluno do conservatrio, Paulo comeou a frequentar a biblioteca, estudar a teoria presente nos livros e assistir a algumas aulas como ouvinte.

Apesar de se dedicar msica, a carreira como designer seguia firme e j cobrava as suas responsabilidades. Aos 17 anos, Paulo Arruda comeou a trabalhar com computao grfica e produzia artes de comerciais e vinhetas para programas de TV. Dois anos depois, foi contratado para trabalhar no departamento de arte da Rede Globo Nordeste, onde ganhava bem e j conseguia comprar seus discos e livros. No entanto, a vida estabilizada, financeiramente, no o impedia de estar volta e meia atordoado com o estresse do trabalho.

Paulo Arruda seguia com a sua rotina profissional na televiso, prazos e mais estresse. Mas ainda lhe faltava algo para faz-lo feliz por completo. Aos 26 anos, a morte do pai foi um duro golpe que, somado
a problemas no trabalho, o atirou numa depresso. Esse foi o momento em que eu decidi largar tudo e mudar de vida. Com o dinheiro que recebi da televiso, poderia me manter por um bom tempo. Ento decidi estudar msica e fazer dela a minha nova profisso, revelou o compositor.

TRANSMUDANDO A ARTE Depois de construir uma vida profissional na rea do design, chegava a hora de comear do zero. Paulo no conhecia quase ningum na cena musical do Recife, mas as chances de estudar eram maiores. Ele conseguiu ingressar no Conservatrio Pernambucano de Msica e comeou a ter aulas de baixo eltrico com o professor Marcos Arajo. Alm das aulas de instrumento, Marco, como era carinhosamente chamado pelos alunos, tambm ensinava harmonia e viu o interesse de Paulo Arruda pelo universo musical.

O professor o levava para tocar na noite e dar algumas canjas em apresentaes. Paulo foi formando grupos, fazendo arranjos e ganhando algum dinheiro com msica. Marco foi mais que um professor, era como um pai pra mim. Foi ele que me incentivou a estudar baixo acstico, pois as chances de conseguir mais trabalho seriam maiores, relembra Paulo Arruda.

O primeiro professor de baixo acstico (contrabaixo) foi Jos Chagas, depois seguindo-se os estudos com o professor Tales Silveira. Junto ao novo mestre, tambm tomou aulas particulares de harmonia e arranjo, por um perodo de trs anos. Paulo Arruda j havia comprado o seu contrabaixo e dedicava-se ao instrumento e aos arranjos e composies.

Em 2008, o compositor escreveu a sua primeira obra, intitulada Pitombando no baio. Paulo Arruda escreveu a pea no I Concurso de Composio Moacir Santos para Banda, realizado pelo CPM. Eu j tinha a pea pronta. Quando soube do concurso, fiz algumas adaptaes e mandei para a seleo. Eu escrevi sem me identificar. Os jurados achavam que era uma obra de algum de outro estado, pois procurei seguir um estilo diferente dos compositores locais. Sem menos esperar, minha me atendeu ao telefone em casa, dizendo que eu havia conquistado o primeiro lugar no concurso. Foi uma felicidade imensa, contou.

No mesmo ano, conciliando o estudo no conservatrio, Paulo ingressou no curso de licenciatura em Msica pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Muito empenhado, e diferente da maior parte da turma, gostava mais da rea de teoria musical. A universidade fortaleceu o seu gosto pela composio e as aulas de esttica e harmonia, ministradas pelo professor Dierson Torres, foram de grande importncia para dar mais qualidade ao seu fazer musical. A disciplina de esttica e harmonia obrigatria e exige muita compreenso. Nem todos os alunos tinham interesse em se dedicar a ela (a disciplina). Eu sempre extra o mximo que pude do professor Dierson e s vezes sentia que ele estava dando aula focado nas minhas dvidas. Eu e outros alunos montvamos grupos de estudos e, quando entrvamos de frias, eu sabia que teria mais tempo para estudar as tcnicas de composio, comentou.

ENFIM, COMPOSITOR - A vida musical de Paulo Arruda estava sendo trilhada com maestria e mais conquistas viriam implementar o seu currculo. A Orquestra Sinfnica Jovem do Conservatrio Pernambucano de Msica tornou-se campo de atuao de Paulo a partir de 2010. Seu instrumento no grupo continuava sendo o contrabaixo, mas a vontade de compor tornava-se cada vez maior.

Segundo Arruda, ao contrrio do que muitos pensam, compor algo metdico e trabalhoso, e no uma inspirao que vem, levando o autor a escrever a obra do comeo ao fim. Ele acredita que muitas ideias vm de Deus, so divinas, mas imprescindvel saber em que momento aplic-las ao longo da pea. Minha msica extremamente ligada tradio. Eu busco extrair sentimentos das pessoas que esto ouvindo o que eu escrevo. Acredito que a funo da msica elevar a conscincia e provocar uma reflexo no pblico, explicou.

A habilidade de Paulo Arruda com o desenho tambm contribuiu para a elaborao das suas obras, nota por nota, todas milimetricamente organizadas, numa folha de papel. O msico edita as suas prprias partituras da forma tradicional, desenhando as escalas e acordes nos pentagramas. Durante quatro anos, o compositor no Cangao de vida e morte, um poema sinfnico que traz a imagem do cangaceiro, da seca e da f do sertanejo - sem recorrer ao regionalismo caricato, presente em algumas tradicionais obras nordestinas. Paulo Arruda
pediu ao maestro da orquestra do conservatrio, Jos Renato Accioly, para tocar a pea em um concerto do grupo sinfnico. O regente concordou e a obra viria a ser estreada no final de 2012.

Ainda no mesmo ano, Arruda enviou a obra para participar do concurso Tinta Fresca, promovido pela Filarmnica de Minas Gerais. Concorrendo com compositores nacionais e estrangeiros, o Cangao foi selecionado e tambm seria tocado pela filarmnica no mesmo ano. O bom resultado no concurso me trouxe mais visibilidade como compositor. Fiquei muito orgulhoso, pois concorri com mestres e doutores em msica e consegui uma excelente colocao. Passei a receber mais encomendas de arranjos. O professor Dierson Torres me disse: continue assim, que seu caminho esse, relembra.

Em 28 de maio de 2014, sua pea foi tocada pela Orquestra Sinfnica do Recife, no Teatro de Santa Isabel, sob regncia de Marlos Nobre. Em maio de 2015, ele participou novamente do Concurso Tinta Fresca e foi um dos finalistas com a pea Reza. A obra tambm foi inscrita para a Bienal de Msica Brasileira Contempornea, organizada pela Fundao Nacional de Artes (Funarte), e recebeu a terceira maior nota do festival, quase sendo classificada para apresentao.

O FUTURO - Aos 39 anos, Paulo Arruda conseguiu mostrar que nunca tarde para recomear, trilhar um outro rumo e trazer um novo sentido para a vida. O compositor fez parte da Orquestra Retratos, da Orquestra Sinfnica Jovem do CPM. contrabaixista, arranjador, pianista, mas a composio continua falando mais alto. Paulo Arruda est finalizando a reviso de Reza, que ser executada pela Orquestra Sinfnica do Recife em 2017. A convite do maestro da Orquestra Criana Cidad, Nilson Galvo Jr., ele est escrevendo uma obra comemorativa aos 10 anos do projeto social que trabalha a musicalizao de crianas e adolescentes no Recife. Essa pea ter caractersticas do novo armorial, com uma maior expanso harmnica, mas sem perder as caractersticas da sonoridade da nossa terra. Tambm ser uma obra animada, que retrata a juventude. Podero ser vistos na composio temas como toada, aboio e galope, descreve.

Um quarteto de cordas encomendado pelo Quarteto Encore, do qual faz parte a professora de violino da OCC Rafaela Fonsca, tambm est sendo concludo. A composio ser inspirada no conto Pramo, de Guimares Rosa. Paulo Arruda est finalizando ainda outra obra para orquestra sinfnica, com o ttulo de Umbra et Lux, op. 15. O compositor tambm trabalha numa composio para orquestra de cmara e meio-soprano solista, baseada nos Trs poemas, da escritora ngela Monteiro, alm de mais uma obra comissionada pelos msicos Pedro Huff e Paula Bujes, escrita para violino e violoncelo, intitulada Modus III.

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19/08/2017

Concerto comemorativo de 11 anos da Orquestra Criana Cidad

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